Os Sete Gêmeos Regentes e a Queda do Reino das Virtudes.



“Fizemos um trato, ele deveria enviar suas sete virtudes cardeais, enquanto que eu deveria apenas fazer os sete pecados, (que já estavam lá, livres, leves, soltos e sempre se multiplicando), atrapalharem ao máximo os bem feitores divinos. Nunca fui de recusar desafios. O que eu tinha a perder afinal?”

Seus membros largos, duros como aço e quentes como lava a ajudavam a rastejar pelo chão de pedra imundo. Levantou-se usando suas ultimas forças, seu Vazio consumia todos os seus sentimentos e ela não conseguia ao menos chorar.
Uma pequena explosão e uma falsa pista foram tudo que a sorte ou destino trouxeram para que a multidão as perdesse de vista.
Somente a dor física a lastimava como raios finos penetrando dilacerantes em diversos pontos do seu corpo, mas sem hesitar se levantou, acomodando seu ultimo laço sanguíneo nas costas. Oferecia aquela dor como homenagem a seus irmãos, que agora já deviam estar livres. Totalmente livres da dor.
Tentavam fugir do grande grupo que clamava por vingança. Cobravam os erros e enganos que ela e sua família trouxeram. Eram grandes as perdas, sobre tudo, a humanidade, se é que nela residia algum valor.
Sob as cores da noite e as lagrimas do céu, viu por entre os prédios, em pontos distantes, raios de luz subindo as alturas como pássaros, refletindo a claridade azul em seu rosto de criatura mitológica.
Queria gritar, queria sofrer mais do que a dor física permitia, já não tinha como fugir, suas escolhas deixaram apenas um beco escuro a sua frente, e era por ele que deveria seguir.

“Eram sete, e cada um completava o outro. Irmãos com algo diferente em que acreditar. Um caminho a seguir. Uma virtude para desenvolver e dividir ao mundo. Todos tomados por uma insatisfação que os consumia. Agora, aquele velho sentimento se mostrava de uma forma tão intensa, que nunca antes pode conceber, e sua irmã, a passos do abismo, era a ultima pessoa com quem dividiria algo nesse mundo.”

Ouviu gritos a suas costas, eles estavam chegando. Tentou olhar para trás, mas se desequilibrou, voltou-se para frente, lutando contra seus medos e incertezas que a cercavam como um véu.
Ela não iria conseguir, porém não sabia disso, sua força tinha sido minada pelo seu Vazio, mas dentro dela ainda resistia à esperança.

“Tudo que sonharam, e tudo que fizeram para construir aquele sonho, desmoronou, levando um a um. Suas sementes que geraram belas flores e frutos foram violadas, injetadas com o veneno da mentira, e agrotóxicos de aparência benéfica, porém mortais. O plano de suas vidas fora um erro? Talvez eles não fossem tão especiais.”

Suas pernas pesavam agarradas pelo chão, presas por arrependimentos que não conseguia sentir e fantasmas que arquitetaram seu fracasso desde o inicio. Tentou se livras daquelas nojentas mãos que seguravam seus tornozelos, fechou os olhos pedindo para que desaparecessem.
Na sua luta em tentar determinar o que era verdade e ilusão, sua força conseguiu libertá-la. O impulso, como de ondas em ressaca, quebrou diante a praia de concreto e a junção de seu peso e o de sua irmã contra a tampa de uma boca-de-lobo fez seus braços prenderem entre dentes de ferro e concreto, quase se desfazendo. Enquanto livre, o corpo de sua irmã rolou metros à frente.
A água da chuva corria, e ouvia como se estivesse próximo a uma queda d’água os ecos de seu destino.
Quase sentiu o gosto da raiva e do medo, e por isso esta foi a vez que chegou mais perto da felicidade, iria gritar, mas este morreu no pensamento.

“Agora entravam em combate a Ira contra a Ponderação. A ultima das virtudes contra a primeira enfermidade da alma. Os defeitos dos que a rodeavam agiram como um câncer afetando as células da perfeição, que frágeis, tentavam resistir.”

Ela olhou para o corpo casto de sua irmã que jazia em uma posição horripilante, totalmente desajeitada metros a sua frente, o corpo que em vida refletia a doce beleza de sua alma e atos, fora dilacerado e agora era apenas o casulo vazio de uma borboleta.  Desejou chorar com todas as suas forças. Mas como era comum a sua natureza, a paciência a tomou, quem sabe pela ultima vez.

   “Ela não conseguiu vencer a natureza humana. Assim como seus irmãos, foi alcançada e subjugada por sua oponente, mesmo conseguindo resistir até o ultimo momento, o sabor da derrota é o mesmo. Falharam em seu destino ou estavam destinados a falhar?”

 Gritou em protesto ao ver o corpo de sua irmã ser levado com violência, era como ver um trapo velho ser jogado. Em seguida a multidão turvou sua visão, matando a luz da noite.
A sua volta, olhares com ódio e gritos de vitória. No entanto, a chuva era o único som que queria ouvir, e a cascata artificial abaixo de si, o único lugar que gostaria de ir.
Muitas pessoas hesitaram, vendo a mulher indefesa, com os braços estranhamente presos em uma tampa de bueiro, seu semblante era a confusão, que possuía uma beleza estranha, não natural como a que se encontra em qualquer lugar. Talvez uma beleza não física, alheia as suas feições que ganhavam uma coloração que não conheciam e proporções mistas do humano e o divino.
Mas a maioria não estava ali por justiça, e sim por desforra, regidos por seus valores estritamente materiais, ou defendendo seus dogmas que foram ultrajados, suas certezas que foram traídas, e orgulho que foi, não apenas ferido, mas sobretudo reduzido ao nada.

“Quando os “falsos salvadores” caíram, a morte da esperança reagiu em cada um, e projetaram sobre os “Sete Gêmeos Regentes” a culpa por todo o mal que lastimava suas vidas. Precisavam apenas do estopim da revolta, alguém para dar o primeiro passo.”

“E enquanto os Sete pela ultima vez unidos, buscavam sua inocência diante do povo, foi orquestrada a traição pelos mesmos conselheiros que os havia corrompido.”

Gritos de pânico e murmúrios coincidiram com uma imensa luz azulada que iluminou os últimos da roda de linchadores, enquanto os mais próximos começaram a espancá-la, com chutes, pedaços de pau e ferro ou qualquer coisa que encontraram no caminho, sem notar a confusão formada na boca do beco.
A tampa da boca-de-lobo se partiu totalmente, levando consigo sua prisioneira ao fundo do buraco. Ela fechou seus olhos, se entregando a sua angustia, finalmente ela penetrou em seu Vazio. Tornaram se um.
Alguns de seus agressores se desequilibraram se afastando em seguida. Um misto de satisfação e medo cresceu dentro de cada um. Em silêncio todos esperaram olhando atentamente para o buraco.
Uma sombra negra começou a brotar do bueiro como uma trepadeira, viva e pulsante, ela assustou os incrédulos a sua volta. Seus ramos escuros criavam aos poucos uma forma definida suspensa no ar, e o negrume era substituído pela mesma luz azul que iluminou o grupo momentos antes. A figura formada de pura claridade surpreendeu a todos, que confusos, não sabiam o que pensar ou em que acreditar.
Uma voz perdida na multidão expressou o que talvez fosse o que muitos pensaram: “Meu Deus, o que fizemos, matamos um anjo!?”

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Esta é uma das 5 versões  de um conto originalmente escrito para o fanzine "O Fabulário". O tema era relações fáusticas. E nesse conto queria abordar uma história que fosse grande de mais em pequenos flashs. fazer um conto que guardasse um romance. Eu tinha o limite do fanzine e ao mesmo tempo, queria propor uma maneira pouco comum de se construir uma história.
Depois de muitas discussões no grupo e conselhos, acabei modificando bastante o conto final, que entrou pra a edição Fáusticas, porém nunca publicado. (quem sabe um dia?). O conto final ganhou o nome de "Três lampejos sobre Sete Vidas alternativas". pretendo postar em breve por aqui.

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