Para Nunca dizer Adeus.

“Que bom que chegou, já estava cansado de te esperar”
“Desculpe a demora, essa chuva atrapalhou tudo!”
“É então, imagina esperar nesse frio e com essa chuva!”
“Eu sei... eu sei...”
“Mas, e ai tudo bem?”
“Sim, tudo ótimo... sabe que dia é hoje?”
“Não, qual? O dia da festa?”
“Não, hoje é sábado de aleluia...”
“uhum...legal...”
“Puff... dia em que Jesus ressuscitou...”
 “Tanto faz, não sou católico, ta esperando por outro milagre hoje?”

Os dois amigos riram...
“Sabe... até estou, mas também não sou católico...”
Após dizer isso, ele ficou imaginando como um milagre poderia mudar as próximas duas horas da sua vida, quem sabe, mudar o resto da sua vida.

“Não, não vai acontecer. Vou tentar agir normalmente...”
“Cara, não sei porque você continua com isso, parece que gosta de sofrer!”

Um sorriso brotou no rosto deprimido do amigo. Sem alegria
“É, as vezes eu acho que é só por isso que eu continuo sentido certas coisas, sabe? Apenas pela dor. É como se eu fosse viciado. É como se ela fosse minha droga.”

“Sua droga? Qual tipo? Hahahaha”

“Qual tipo? Acho que ela seria como uma cocaína. Quando o perfume dela penetra pelo meu corpo é como se injetasse felicidade, euforia, ganho animo, mas depois, quando ela vai embora, cresce um vazio em mim, é como se com ela fosse toda a alegria do mundo...”

“Uau! Espero nunca sentir isso!”
“É, e eu espero que isso acabe logo...”
“Porque você não acaba com isso logo?”
“Se te pedissem pra escolher entre decepar suas mãos ou perfurar seus olhos, seria fácil?”

“Deixa eu pensar, ver e sentir a dor de nunca poder tocar, sentir a dor de não ver, mas poder tocar...bom, quais dos sentidos te trás mais alegria?”
“Acho que a visão, na vida existem muitas coisas inalcançáveis para nossas mãos, mas que nossos olhos agarram.”
“Tipo o que? “
“Nenhuma mão poderia abraçar o nascer do Sol”
“Sim, mas de qualquer forma ser mutilado nunca é bom...”

“É, se pudesse escolher a veria bem de perto e a abraçaria... para sempre...”
“Olha ai nosso ônibus, vamos”

Eles subiram as escadas e atravessaram a catraca, sentaram-se nos últimos bancos.

Ele começava a pensar como seria vê-la, na ultima vez ela esteve ainda mais linda. E agora, como estaria?

“E quem não iria querer não é meu amigo. Até eu que sou mais bobo, com todo o respeito, claro!”


Riram-se cúmplices.

“Eu queria me afastar. Dizer tudo isso que está entalado em mim, depois sair andando pra nunca mais vê-la. Dizer que penso nela todos os dias em diferentes horas, dizer que não consigo mais fingir que não existe esse sentimento fingindo que está tudo bem.
Não esta tudo bem! sofrer vendo que ela segue distante, que ela está se afastando. Pensar que ela esta com outro, pensar em quantos idiotas beijaram aqueles lábios que eu desejo por tanto tempo.”
“Não é fácil, eu sei, mas acho que deveria fazer isso, vocês nunca vão ser completamente amigos, vai sempre existir o medo de passar a impressão errada, ou não contar certas coisas para não magoar um ou outro. mas no final todos se magoam, ao menos, você vai se magoar.”
“Da sinal ai, o próximo é o nosso.”

Desceram, estavam a poucos metros da festa de aniversário.
Ele estava decidido a acabar com tudo aquilo aquela noite. Andavam ao lado da calçada pela rua escura.

Caminhavam sob o mesmo guarda-chuva...

“Nossa, vamos ficar meio molhados do qualquer forma! Haha”
“hahahaha, melhor do que completamente molhados.”

“Você acha que isso é amor?”
“Cara, não sei... eu nunca quis que fosse, e nunca quis dar esse nome para o que sinto, mas o que sei é que tudo que eu mais queria era estar com ela.”
“A vida é assim, a gente vai tendo que aprender a viver sem as coisas que mais nos são importantes...”
“ Eu nunca vou entender como alguém pode negar algo tão belo...”

Parou bruscamente acompanhando o amigo petrificado. Estavam
na porta da casa onde a festa acontecia.
Ela acabava de sair ao portão. Ele lembraria do sorriso que a moça deu ao vê-lo pelos últimos dois segundos da sua vida.

O Sorriso se tornou pavor.

Uma luz branca segou os dois.
A chuva caia forte.

Ele empurrou o amigo o mais longe que pode, recebendo todo o impacto.

Eles nunca puderam dizer Adeus.

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Este foi um exercício escrito em 2010 - criar um conto de uma história em movimento que envolvesse uma conversa orgânica e falas de ações cotidianas para compor o ambiente. Tratar de sentimento complexos em um espaço curto e tentar surpreender em um final inesperado.


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